Folha e O Globo aderiram, na semana passada, à Declaração de Hamburgo, um documento da indústria dos jornais que clama pelo “respeito às leis de propriedade intelectual para textos jornalísticos reproduzidos na internet”.
O problema é que a carta (PDF), como quase sempre acontece quando neófitos tentam falar ou legislar sobre a web, imagina ser capaz de definir limites absolutamente incontroláveis porque a internet, e quem não sabe disso parou no tempo, é dominada pelo usuário, não por grandes corporações.
Primeiro que os publishers deixam claro que a cobrança por conteúdo é uma prioridade _quase uma panaceia que estabelecerá paredões pagos cujo único efeito prático será o desaparecimento das marcas (e de seu conteúdo) da internet “legal”.
Claro, se você se fecha totalmente a assinantes, se esconde do resto do mundo que usa as ferramentas de busca para encontrar o que deseja. Sem contar que nem isso garante a proteção ao seu rebanho _seu conteúdo será distribuído de um jeito ou de outro, e na maioria das vezes por pessoas que amam você.
Outro erro da indústria jornalística é investir contra agregadores como o Google News. Pode ter certeza de que eles não estão usurpando seu conteúdo, mas o divulgando e levando a lugares que você jamais esperava alcançar.
E não me venham falar no exemplo do The Wall Street Journal, que a cada dia amplia sua carteira de assinantes on-line (eles já são bem mais de um milhão). Informação econômica (e que se reverte em dinheiro) é precisamente a única que o ser humano não está disposto a compartilhar.
Bem por isso Rupert Murdoch adiou recentemente seu plano de cobrar pelo acesso aos sites jornalísticos sob o seu comando. É que é preciso uma justificativa muito forte para fazer as pessoas pagarem pelo que é de graça há tempos na internet.
Trabalho para um psicólogo mesmo.
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Foto de Tim Gruber no projeto "Caminhoneiros Americanos"
Domingo é um dia bom pra ver.
Achei o site que reúne o trabalho de Tim Gruber, fotógrafo de Nova York.
E o ensaio com caminhoneiros americanos é um oásis.
Mas será que não falta alguma coisa para a narrativa ficar mais sólida?
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“Eu me lembro de ter cruzado essa linha e dito para mim mesmo ‘cara, eu não vou fazer isso de novo. Amanhã, voltarei para o lado do bem e farei as coisas como se supõe que elas devem ser feitas’”.
A frase é de Jayson Blair sobre um deslize cometido logo após os ataques de 11 de setembro, quando inventou o nome de um personagem de uma reportagem. Segundo ele, teria sido a primeira mentira de uma série que levou sua carreira à ruína.
Responsável pelo maior escândalo da história de 158 anos do New York Times, Blair foi demitido em 2003 após confessar que havia inventado aspas, fatos e personagens. Atualmente ele trabalha numa clínica psiquiátrica onde também se submete a tratamento.
Ontem, voltou a circular num ambiente jornalístico ao palestrar para estudantes da Universidade Washington e Lee, em Lexington, numa cadeira sobre ética.
É sempre bom manter vivo na lembrança o caso Blair e suas consequências.
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Mesmo sem fazer dinheiro (pelo contrário, torrando orçamento), o The New York Times continua investindo fortemente em inovação na web.
Agora o jornal põe à disposição o seu portfólio de experimentações voltadas para manter o usuário por mais tempo dentro do site _o tempo de permanência é, hoje, a moeda mais poderosa da internet, superando por muitas cabeças o page view ou a visita única.
Tem todo tipo de aplicativo, e para diversas plataformas.
Mais uma fonte inspiradora para quem procura boas soluções, o tema que predominou nas discussões desta semana por aqui no Webmanario.
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Acaba de sair um estudo na Suécia que coloca sobre a mesa uma porção de questões interessantes sobre a nossa profissão. A conclusão é que os jornalistas vivem um eterno conflito existencial entre o interesse do público e o que consideram verdadeiramente notícia.
Recentemente conversei com Pablo Pereira, editor-executivo na web de O Estado de S.Paulo, sobre o quesito audiência. E a posição dele é clara: que o jornalista não pode estar preocupado com o alcance do que relata, ou melhor, em entrar numa disputa clique a clique nas matérias que escreve.
O que deve prevalecer, diz Pablo, é nossa noção profissional do que é relevante e deve ser destacado e priorizado.
Há uma pontinha de arrogância numa declaração como essa, mas eu tendo a concordar em grande parte com ela. Valorizo como poucos a importância de se ouvir a audiência e dialogar com ela, mas isso não exclui nossa responsabilidade de, sim, e enquanto houver esse modelo de distribuição de notícias, apontar o que é importante.
Ulrika Andersson, do Departamento de Jornalismo e Comunicação de Massa da Universidade de Gotemburgo, resume bem a situação. “Geralmente, os jornalistas sentem que é importante responder àquilo que a audiência quer, mas ao mesmo tempo eles frequentemente não sabem realmente do que se trata”.
Para muitos, bastam os dados de acesso às notícias on-line do dia anterior.
E eu pergunto: será?
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Muito do que Lula tem dito sobre o trabalho da imprensa não só faz bastante sentido como, temos de admitir, está correto.
Como num evento com catadores de papel, na semana passada, quando o presidente disse que a mídia “já não decide mais, porque o povo não quer mais intermediários”.
Eu não diria nem que não quer, mas a verdade é que ele não precisa. O avanço tecnológico e a comunicação em rede permitiu isso, a comunicação direta entre governante e governado. Ou não foi essa a mensagem transmitida por Barack Obama na campanha eleitoral do ano passado?
No mesmo evento, Lula pediu aos repórteres que não interpretassem fatos. Outra recomendação, direcionada a um repórter, que parece correta, não?
Interpretar (diferente de fazer sinapses e mostrar situações) é um papel um pouco mais acima na cadeia produtiva do jornalismo.
Agora, quando diz que o papel da imprensa não é fiscalizar, mas informar, como em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, Lula extrapola o bom-senso. É ambos, senhor presidente.
Mas não acho que devemos atirar pedras pelo conjunto da obra de suas opiniões sobre nossa profissão. Pelo contrário, elas estão alinhadas com o planeta Terra em 2009.
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Você está procurando referências sobre grandes trabalhos multimídia (ou seja, a aposta em narrativas que incluam foto, vídeo, áudio e o que for) e não sabe onde encontrar?
Pois bem, o Multimidiashooter selecionou dez exemplos de tirar o fôlego (um deles, a reportagem “Cáli, a cidade que não dorme”, já havia sido recomendado aqui recentemente).
Ah, nem todos os projetos são jornalísticos. Melhor ainda: há tempos a criatividade anda caminhando longe das redações _exemplos da publicidade ou do design sempre nos dão ideias ótimas).
Casos como o da Economist, em que uma série de profissionais mostra seu ambiente de trabalho, o lugar onde têm mais inspirações. Verdadeiramente sensacional.
Desfrute.
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A Europa está discutindo, neste momento, a Carta de Direitos dos Cidadãos na Era Digital. É um documento importante e com vários pontos que considero fundamentais para esta e as próximas gerações.
Entre as sugestões espanholas para a União Europeia estão a banda larga como serviço público universal, a neutralidade da rede, a necessidade de se manter em domínio público conteúdos subsidiados com impostos, padrões abertos para a tecnologia, o direito de acesso a informações públicas e, enfim, aumento de proteção dos direitos dos cidadãos que acessam a rede.
É uma discussão que diz respeito a todos nós.
Juan Varela aborda longamente o assunto, para quem quiser se aprofundar.
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O Houaiss tem uma estranha visão sobre jornalismo
Ontem eu contei aqui que decidi ir ao dicionário Aurélio checar a definição de jornalismo _e que me decepcionei com o que encontrei.
Daí a Karina Padial, que é repórter da revista Imprensa, teve uma ideia ainda melhor: conferir, em outros dois dicionários nacionais, acepções para o termo. E os resultados foram ainda mais assustadores.
Enquanto o Aurélio patina ao limitar o campo de atuação da atividade, o Houaiss perpetra uma definição verdadeiramente assustadora. É o item três do verbete, que você vê reproduzido no início deste texto. Segundo ele, jornalismo também pode ser a “abordagem superficial de um tema, menos interessada em esclarecê-lo do que em agradar o gosto e os interesses populares que estão na moda”. É?

Curto e grosso: o Michaelis quase não tem palavras para definir o jornalismo
Lacônica e minimalista, a definição do Michaelis (justamente por isso) acaba sendo a que diz menos bobagem.
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Jornalismo [De jornal2 + -ismo.]
S. m. 1. Atividade profissional da área de Comunicação Social (q. v.) que visa à elaboração de notícias para publicação em jornal, revista, rádio, televisão, etc., acompanhadas ou não de comentários.
2. Os conhecimentos relativos ao jornalismo (1).
3. Os jornalistas: 2
Inspirado por um post da brilhante Mindy McAdams, decidi ir ao dicionário para checar a definição da palavra “jornalismo”. E, assim como ela, também me decepcionei com o que encontrei.
Para começo de conversa, o Aurélio diz expressamente que se trata de uma “atividade profissional”, o que já sabemos que não é verdadeiro. Ou será que as tantas experiências de jornalismo cidadão não serviram para nada?
Outra bola fora do dicionário é cravar que a atividade “visa à elaboração de notícias para publicação em jornais” e outras plataformas. Uma meia verdade, mas que exclui uma série de outras atividades jornalísticas mais ou menos recentes _como organizar dados, por exemplo.
Além disso, o dicionário se esquece de citar justamente a mídia mais importante de todas, que além de conter todas as outras em si ainda mudou radicalmente a forma como o ser humano se comunica.
Eu ainda prefiro a singeleza de dizer que jornalismo é o ato de apurar/analisar/difundir notícias. Simples assim.
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