O glaciar Perito Moreno, um colosso de gelo de 30 km de comprimento, 257 km2 de superfície e uma altura de até 70 metros, se rompeu ontem e ninguém filmou. Quer dizer, alguns dos 120 privilegiados que estavam no Parque Nacional de los Glaciares, na província de Santa Cruz (Argentina), fizeram imagens em celulares. Ponto para o jornalismo cidadão.
Profissionalmente, no entanto, isso significou que equipes de televisão de todo o país, que tinham enviados à pequena cidade de El Calafate, simplesmente comeram bola. Como foi possível?
O fenômeno do rompimento da geleira (documentado desde 1917 e que ocorre periodicamente, hoje normalmente em intervalos de dois ou quatro anos) era um acontecimento nacional, e conhecia-se a sua iminência desde a semana passada, quando grossas camadas de gelo começaram a se desprender (vídeo) de suas imensas “falésias”.
Pois bem: às 11h20 de quarta, para poucas testemunhas e nenhum canal de TV “em operação”, o colosso ruiu _não necessariamente pelos efeitos do aquecimento global, mas foi a primeira vez que o fenômeno se produziu em pleno inverno.
A desculpa: nesta época, o dia naquela região amanhece às 9h, e a geleira é atingível somente após caminhada de uma hora e meia. Entre uma coisa e outra, Perito Moreno ruiu.
O pior é que havia, sim, (poucas) equipes de TV no local, mas como nenhuma estava transmitindo ao vivo, os câmeras relaxaram. Típico.
Daí que só o canal 9 de Santa Cruz, terra dos Kirchner (Nestor, o ex-presidente, e Cristina, a atual), filmou o espetáculo. Diz-se, inclusive, que Nestor em pessoa teria feito gestões junto ao canal para que mantivesse o furo e não distribuísse imagens às redes nacionais (o que só acabou ocorrendo horas depois).
Lembrei-me da Copa de Mundo de 1998 e de como, com 500 jornalistas brasileiros na cobertura, o atacante Ronaldo sai da concentração com a língua enrolada e nós só ficamos sabendo que houve alguma coisa uma hora antes da final do Mundial, contra a França, quando o nome de Edmundo apareceu no time titular de Zagallo (como se sabe, Ronaldo saiu da clínica para o vestiário momentos antes do jogo e se escalou, no final das contas).
Não basta bater no peito e dizer que tem diploma de jornalismo. Precisa ser alfabetizado e, acima de tudo, esperto.
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