Lembrei desse documentário porque hoje me pediram o link. Pediram não, cobraram. “Cadê, não está na sua bitácora?”
Agora passa a estar. É de 1993, conta a história da Rede Globo e foi produzido pela BBC. É forrado de devaneios. Infantil, até. Chico Buarque dizendo, logo no começo, que Roberto Marinho tem mais poder que o Cidadão Kane é, pra dizer o mínimo, patético. Leonel Brizola compara Marinho a Stalin. Constrangedor.
A exibição pública da reportagem estaria proibida até hoje no Brasil, o que duvido _checarei e voltarei ao assunto.
De toda forma, é um retrato ingênuo de um tempo em que a esquerda via na telinha uma justificativa crível para seu fiasco eleitoral. Hoje, quando o fiasco é administrativo, a TV passou a ser aliada.
O discurso de apresentação da coisa é bonito, fala em “entrevistas com líderes comunitários” e tal, mas aposto que imagens de “meu cachorro fazendo pipi no poste” serão as mais abundantes.
O cidadão, quando se trata de jornalismo, se atrapalha todo. Não sabe que um cachorro mordendo um homem não é notícia, mas o oposto sim.
Um ângulo interessante sobre jornalismo cidadão surgiu depois que li uma entrevista de Hayden Hewitt, um dos fundadores do Liveleak.com _basicamente um repositório de vídeos amadores.
Primeiro que caiu minha ficha: na verdade, o cidadão está por trás de poucas iniciativas jornalísticas. A maior parte delas são registros de entretenimento.
Aí fiquei pensando que, de certa forma, é um pouco a birra que jornalistas tradicionais têm quando olham portais de internet. Torcem o nariz, sendo que entretenimento e jornalismo brigam por espaço nas home pages. E o jornalismo, sempre é bom lembrar, é apenas um pedacinho do conteúdo dos portais.
Daí, quando o proprietário de um site que usa material produzido pelo usuário diz que há entretenimento e também quem leve a sério, paro pra pensar. “Uai, entretenimento não pode ser sério?”
Ainda na linha “o que suas operadoras de celular querem fazer por você (para ganhar mais dinheiro, claro)”, a Orange, principal empresa de telefonia móvel da França, já está testando desde 20 de abril o “e-paper”, ou papel eletrônico.
O assunto é legal porque junta conteúdo para ambientes portáteis e o fim dos jornais impressos, dois dos assuntos prediletos deste site.
O papel eletrônico da Orange, batizado de Read&Go (vídeo), tem capacidade para armazenar cerca de 200 jornais ou 30 livros. No vídeo fica claro que se trata de um palm top ampliado _a versão da foto acima, maleável, é mais charmosa.
Para fazer o bicho funcionar, a Orange trabalha com a tecnologia 3G associada ao wifi. É aí que essas empresas vão encher o cofre. Lembram? Mais tecnologia, mais e melhores aparelhos. Mais caros, que permitem maior tempo de navegação e uso de mais recursos. Contas maiores ao final do mês, resumindo.
O modelo francês (150 pessoas vão testar o “papel” por pelo menos dois meses) começa esquisito no que diz respeito ao conteúdo, porque publicações estão esfregando as mãos e anunciando pacotes móveis que podem beirar os 800 euros anuais. Enquanto isso, o mundo discute e se encaminha para a supremacia do US$ 0, ou seja, do grátis.
Quem está disposto a pagar por conteúdo levante a mão. Ninguém, né?
Ainda há pouco me perguntaram sobre como “subir” um vídeo em sites de compartilhamento (como You Tube, Brightcove ou Videolog).
Após quatro horas falando sem parar, a PC World ouviu as minhas preces e publicou um texto explicando exatamente isso. Divirtam-se.
Ah, e o livro Jornalismo 2.0 (PDF), indicado como leitura sugerida no começo do bimestre, possui todo o passo a passo também, inclusive com dicas de quais filmadoras comprar.
Falamos deles outro dia, quando abordamos a representação do jornalista no cinema, e ontem morreu Dith Pran, fotógrafo cambojano que era o protótipo do escudeiro leal, maltrapilho e disposto a morrer para ajudar seu parceiro jornalista. Um personagem que virou clichê nos filmes dos anos 80, mas que neste caso era verdadeiro.
Pran foi tradutor e faz-tudo do jornalista do The New York Times Sydney Schamberg, enviado ao Cambodja em 1975 para cobrir o golpe que colocou no poder o marxista sanguinário Pol Pot. Como conhecia os atalhos, Pran levou o repórter americano a locais onde se acumulavam caveiras e corpos (como mostra este documentário).
Impedido de deixar o país (só Schamberg pôde sair do Cambodja, e lamentou para o resto da vida ter deixado o amigo para trás), Pran foi preso e torturado por quatro anos, até que se conseguiu passar por um iletrado camponês (o regime de Pol Pot matava as pessoas que pareciam esclarecidas) e fugiu para os EUA, onde acabou contratado pelo NYT e criou uma fundação para ajudar as famílias das vítimas do genocídio.
Da cama do hospital, onde lutava contra o câncer, Pran deu uma entrevista ao NYT poucos dias antes de morrer.
É uma coincidência, já que na quarta passada, e também de câncer, morria Philip Jones Griffiths, fotógrafo que teve papel importante na Guerra do Vietnã.
Rolou na quarta, mas só fiquei sabendo hoje: morreu Philip Jones Griffiths, aos 72 anos, de câncer. Lambe-lambes de luto.
Também, o cara foi “o” fotógrafo. Sua cobertura da Guerra do Vietnã para a agência Magnum ajudou a mudar os rumos do conflito quando expôs na cara dos americanos as atrocidades que estavam sendo cometidas do outro lado do mundo.
Mas a minha imagem predileta do conflito vietnamita no qual os EUA meteram indevidamente o bedelho é essa aí de baixo, feita por Eddie Adams para a AP. Há um documentário em que ele conta o horror da execução (com direito à cena completa, que também foi filmada) a sangue frio perpetrada pelo chefe da Polícia Nacional do Vietnã do Sul, Nguyen Ngoc Loan.
Uma coisa insuperável da mídia Internet é que ela comporta absolutamente todas as outras. Costumo dizer que é um “tudo em um”. Nela cabem jornal, revista, livro, TV, rádio…
Só que as coisas precisam ser organizadas. Um exemplo: olhem que bacana a iniciativa da Rádio Nacional-RJ, por ocasião dos festejos dos 50 anos da Copa de 58 (ganha pelo Brasil).
A emissora (que era a TV do Globo da era do rádio, dominando o país de norte a sul como uma superpotência informativa e de entretenimento) disponibilizou áudios, fotos, textos e vídeos com transmissões de jogos daquela seleção brasileira que encantou o mundo.
Agora tentem encontrar as coisas no blog montado especialmente para abrigar o acervo. Tarefa dura: tudo desorganizado. Os áudios (que são o prato principal, afinal estamos falando de uma emissora de rádio) não aparecem com protagonismo e estão perdidos lá no pé da página.
O destaque principal são vídeos que, evidentemente, não foram produzidos pela rádio na época. Basicamente, colagens de filmes oficiais + coisas pescadas nos sites de compartilhamento de vídeos.
Tudo muito legal, confiram. Mas que a bagunça da sala de estar tornou uma baderna quase incompreensível. E, pior, relegou o que tinha de mais legal (as narrações que reuniam milhares de pessoas em torno do rádio, como se vê na imagem lá de cima, tomada na Cinelândia, no Rio).
Nesta sexta (28/3), no período da aula de Edição II, vamos exibir Citizen Kane (com legendas em português). Além de, provavelmente, tratar-se do maior filme já concebido e rodado, é o maior filme sobre jornalismo jamais realizado.
É a história de Charles Forster Kane, fictício magnata da imprensa idealizado por Orson Welles _que negou até a morte ter se inspirado no verdadeiro William Randolph Hearst, este sim magnata de carne e osso.
Difícil dissociar Kane e Hearst: “Rosebud“, por exemplo (nome que permeia a trama), seria o apelido que o ricaço deu à periquita da segunda mulher…
Mais uma da série “Você viu o que inventaram?” com vídeos vintage de quando a Internet ainda era um bebê. No caso, é um clipe reunido pelo valente Waxy.org com reproduções de telas de sites pré-históricos e gente estupefata se maravilhando diante do computador em 1995.
É valioso porque, apesar de imagens em alguns momentos sofríveis (estavam em fitas VHS recentemente digitalizadas), mostram um momento que nem mesmo os arquivos vivos da web (como o maravilhoso Wayback Machine) possuem, já que suas capturas de tela começam em 1996.