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O que acontece quando um grande jornal resolve integrar suas equipes on-line e off-line, e o povo do papel toma conta do produto?
Às vezes, coisas muito ruins, como o choque de culturas que o Washington Post vive exatamente neste momento.
Recentemente, dois dos maiores jornais do Brasil, Folha de S.Paulo e O Globo, decidiram integrar fisicamente suas redações, movimento que já havia sido feito anos antes por O Estado de S.Paulo.
Em todas, porém, aparentemente cada equipe segue trabalhando a sua maneira. Não é o ideal, mas nota-se boa vontade.
No Washington Post, a integração está sendo bem mais traumática. Papel e on-line viviam em mundos totalmente separados (inclusive em prédios distintos separados por um rio) e foram forçados a conviver juntos.
Essa história vai longe.
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Folha e O Globo aderiram, na semana passada, à Declaração de Hamburgo, um documento da indústria dos jornais que clama pelo “respeito às leis de propriedade intelectual para textos jornalísticos reproduzidos na internet”.
O problema é que a carta (PDF), como quase sempre acontece quando neófitos tentam falar ou legislar sobre a web, imagina ser capaz de definir limites absolutamente incontroláveis porque a internet, e quem não sabe disso parou no tempo, é dominada pelo usuário, não por grandes corporações.
Primeiro que os publishers deixam claro que a cobrança por conteúdo é uma prioridade _quase uma panaceia que estabelecerá paredões pagos cujo único efeito prático será o desaparecimento das marcas (e de seu conteúdo) da internet “legal”.
Claro, se você se fecha totalmente a assinantes, se esconde do resto do mundo que usa as ferramentas de busca para encontrar o que deseja. Sem contar que nem isso garante a proteção ao seu rebanho _seu conteúdo será distribuído de um jeito ou de outro, e na maioria das vezes por pessoas que amam você.
Outro erro da indústria jornalística é investir contra agregadores como o Google News. Pode ter certeza de que eles não estão usurpando seu conteúdo, mas o divulgando e levando a lugares que você jamais esperava alcançar.
E não me venham falar no exemplo do The Wall Street Journal, que a cada dia amplia sua carteira de assinantes on-line (eles já são bem mais de um milhão). Informação econômica (e que se reverte em dinheiro) é precisamente a única que o ser humano não está disposto a compartilhar.
Bem por isso Rupert Murdoch adiou recentemente seu plano de cobrar pelo acesso aos sites jornalísticos sob o seu comando. É que é preciso uma justificativa muito forte para fazer as pessoas pagarem pelo que é de graça há tempos na internet.
Trabalho para um psicólogo mesmo.
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Na sexta-feira encerrei mais um pequeno curso (uma conversa, na verdade) sobre a era da publicação pessoal para a 48ª turma de trainees da Folha de S.Paulo.
É um pessoal que me pareceu bastante ciente sobre os novos desafios que a tecnologia impôs à profissão.
Os slides da aula (agradecimento especial ao amigo Sérgio Lüdtke)
O roteiro de links
Depois de uma sessão mais teórica, na semana passada, desta vez nos agarramos a exemplos (bons e ruins) de conversação e abertura para participação do público no mainstream.
Delícia lembrar o dia em que a ex-plateia, revoltada com o descaso e a ineficiência do veículo que acompanhavam, deu o troco e fez uma grande organização pagar muito caro.
Ou ainda perceber que, na lógica das redes sociais, as pessoas vêm sempre antes das instituições (algo que já virou um corolário, né?).
Mais: que o Twitter, diferentemente de todas as outras mídias sociais, não é construído com base em relações de afetividade e amizade. Todo o oposto: seu inimigo pode estar seguindo você.
Enfim, temos muito a aprender.
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O jornalista André Deak fez, há algum tempo, uma crítica bastante pontual ao sistema Flip Page, adotado recentemente pela Folha de S.Paulo para exibir sua edição na web _e há muitos anos por diversos outros jornais.
A questão sobre o flip é justamente o fato de ser uma reprodução pura simples de um produto impresso, neste caso apenas transposto para a web. Os defensores desse sistema dizem que é isso, exatamente, o que buscam esses usuários.
Deak torce o nariz. “Ainda assim é possível criar outro lay-out, específico para a internet, mais interativo e com mais usabilidade do que a simples reprodução das páginas impressas”.
Verdade. E o pior é que o Flip até tem alguns recursos, mas que muitas vezes o leitor não percebe, como a inclusão de links (a própria Folha tem links associados dentro daquelas páginas, como em remissões de textos do impresso que levam ao site do jornal). Você já percebeu?
O texto critica a Folha pelo atraso em adotar a tecnologia, disponível desde 2002, mas também por essa insistência de emular e perpetuar linguagens anteriores, quando o que temos pela frente sugere muito mais dinamismo e criatividade.
Concordo com absolutamente tudo.
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“Nós somos a mosca na sopa” já dizíamos tantos jornalistas muito antes da campanha publicitária da Folha. Por motivos óbvios, eu parei.
Mas como é bom ver a reação dos que tiveram a sopa estragada por nossa vigilância. Hugo Jenefes, conselheiro do tribunal de contas da província argentina do Chaco, perdeu a compostura diante de matéria dando conta que permitiu, ao arrepio da lei, o funcionamento de uma creche estatal.
“Tem que fazer como dizia o general Juan Domingo Perón: ou todos os jornalistas são funcionários do estado, ou que sejam postos numa canoa e atirados no meio do rio”, disse Jenefes. Que depois contemporizou. “Venho de uma família de jornalistas e tenho vários amigos jornalistas. Jamais diria que é necessário matá-los”.
Mais uma sopa quentinha e gostosa jogada no lixo. Ponto pra gente.
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Gay Talese esteve na Flip e, aparentemente, provocou furor neste sábado num debate ao vivo. Bombou na web, e não é por menos: o cara tem história para contar.
Aliás, o jornalista Mauricio Stycer registrou essa faceta do repórter-escritor americano. “Mario Sergio Conti faz perguntas. Gay Talese conta historias, mas não responde nada. Cansativo”, “tuitou” ontem Stycer_quem fez o melhor resumo da participação de Talese na Flip, ao menos no Twitter.
Mais notícias sobre Gay Talese e a Flip
Mas antes ele tinha falado bobagem embarcando na carona da morte de Michael Jackson. Ruy Castro, sempre solerte, não deixou passar e opinou com propriedade na Folha de S.Paulo de ontem.
“Será que, antes do new journalism, toda a imprensa escrevia mal?”
O problema é que Talese disse que a imprensa matou MJ. E quando Talese diz, supõe-se uma ciranda de consulta ao entorno dos personagens de suas notícias.
“Talese terá ouvido isso de Michael, do psiquiatra, da enfermeira ou da babá do artista? Ou será uma suposição?”, arremata o brilhante Ruy.
Pois é, nem há nada a acrescentar.
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Detalhe da primeira página do Extra, do Rio de Janeiro, publicado em 26 de junho de 2009
Um blog coletivo de fotógrafos escolheu a capa do Extra, do Rio de Janeiro, como a melhor publicada no mundo em 26 de junho de 2009 entre as que elegeram destacar a morte de Michael Jackson na primeira página.
Quem discorda que me apresente outra.
Destacar é diferente de manchetar. A amiga Cristina Moreno de Castro colecionou manchetes e não manchetes sobre o crepúsculo do popstar. Não manchetar com uma notícia dessas é o cúmulo do autismo. É viver num mundo paralelo e totalmente fora de timing.
Estadão e O Globo, por exemplo, deram espaço nobre na capa para o inesperado óbito. Mas não era a manchete _isso tecnicamente, só para lembrar, porque academicamente há a discussão se o assunto que aparece com mais destaque na primeira página de um jornal é a verdadeira manchete, independentemente de convenções gráficas.
Em vários momentos de pasmaceira do noticiário os jornais não souberam oferecer investigação própria e material exclusivo. Quando irrompe uma notícia do tamanho de um Godzilla dentro da redação, a reação é manter o plano original de publicar uma sequência de matérias sobre a crise no Senado?
A colega Luciana Moherdaui desceu a lenha na empre (adoro chamar a imprensa escrita de empre), eu não li toda a produção dos impressos, mas vi muita coisa e concordo com ela. A questão, para além disso, é o que oferecer.
É sério, o que fazer numa hora dessas? Forrar o jornal de artigos, análises e cronologias “bem sacadas”? E o que mais? É difícil, senhores. A informação em tempo real exaure as chances de publicar exclusividades.
Mas veja a importância do rótulo: não li a cobertura do Extra, mas vendo aquela capa eu não tenho dúvida que valeu a pena. Mesmo que tenha sido só pela capa.
PS – Demorou, mas um leitor achou o jornal que destacou (diga-se, sem ser manchete) a morte do astro com o singelo título “Peter Pan morreu”. Nessas horas eu tenho vontade de sumir.

Detalhe da primeira página do Jornal de Jundiaí publicado em 26 de junho de 2009
ATUALIZAÇÃO: A Veja que circula neste sábado emulou a capa do Extra. Válido?

Capa da revista Veja que circulou em 27 de junho de 2009
O leitor Vagner chama a atenção ainda para o Meia Hora, do RJ, que transformou uma das primeiras piadas infames sobre a morte do astro em linha fina de uma manchete anódina (“Nasceu negro, ficou branco e vai virar cinza“).
Também vale destacar a manchete do Diário de S.Paulo (o eterno Dipo, pra quem é velho de guerra na profissão), que tentou sair do hard news e manchetou “Michael Jackson deixa dívida de US$ 400 milhões. Foi massacrado. É a tal história: se o jornal diz que o homem morreu, não apresentou novidade alguma. Se parte pra voo solo, corre o risco de se esborrachar.
Venham fazer jornal impresso no nosso lugar, então.
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Capa memorável da revista National Geographic em 1985. A foto, de autoria Steve McCurry, foi feita com um Kodachrome
Quem é das antigas no fotojornalismo certamente vai ficar um pouco chocado ao saber que o Kodachrome, que acabou se tornando uma espécie de ícone do jornalismo visual, deixará de existir.
O filme cromo era o mais antigo produto fabricado pela Kodak, que anunciou nesta semana o fim da linha. Afinal, o Kodachrome respondia por apenas 1% do faturamento da empresa, hoje calcado (evidentemente) no mercado digital, que lhe fornece 70% de sua arrecadação.
“A preservação do Kodachrome é seu maior legado. Tenhos cromos tirados por meu avô nos anos 40 que estão perfeitos. Da maneira como o filme era processado, era praticamente um original eterno, que nunca desbota”, me disse Gustavo Roth, editor-adjunto de Fotografia da Folha de S.Paulo.
Lembrando que o cromo, ao contrário do filme, não permite correções durante a ampliação/revelação. Se errou na hora de fazer o clique, já era. É por isso que acabou identificado com alguns dos maiores fotógrafos da história _particularmente, tive a oportunidade de manusear cromos no Diário do Grande ABC, que no início da década de 90 usava o processo.
Engraçado que trabalhos feitos com o filme são tema de exposição cuja abertura é hoje, em Washington.
Para os saudosistas, a Kodak conta, em seu blog corporativo, um pouco da história da película, com depoimentos, por exemplo, de Steve McCurry (autor da foto acima que compôs uma das maiores capas de revista de todos os tempos, ajudando a tornar o Kodachrome um mito).
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O Webmanario perguntou nas últimas três semanas a seus leitores se um jornal impresso precisa ter manchete sempre. Trocando em miúdos: se é obrigatório, a quem faz jornalismo em papel, determinar que um assunto é mais importante do que outros na construção de uma primeira página.
A maioria absoluta (61%) optou pelas duas alternativas que se complementavam, “Depende: desde que tenha uma informação realmente relevante”, que recebeu 34% das escolhas, e “Não, a manchete é uma convenção. O importante é distribuir bem os assuntos na primeira página”, com 27% _registre-se que a alternativa “Claro, jornal sem manchete está incompleto” alcançou 26% das preferências (“Não sei, nunca tinha pensado nisso” bateu em 13%).
Leia também: Reinventar o jornalismo ou o jornalista?
Quando eu respondo “não” ou “depende” à indagação “um jornal impresso precisa ter manchete sempre?”, eu claramente estou refutando um modelo que vigora desde que o jornalismo é jornalismo. Seria hora da tal da reinvenção?
Já houve jornal sem manchete, mas era dia 26 de dezembro, pleno Natal. Conta como ousadia, claro, mas reforça bastante a citação do colega Roger Modkovski de que “os jornais partem do falso pressuposto de que todos os dias há acontecimentos a serem noticiados”.
Tudo bem, ousado. Mas porque prescindir de um assunto capaz de chamar mais atenção e, portanto, ser mais promissor como produto?
Tanto é verdade que os jornais não podem navegar ao sabor dos acontecimentos como é mais que sabido que é preciso possuir na agulha material especial/investigativo para tirar o veículo da agenda. São esses os tais “diferenciais” que, além de pautar o jornalismo eletrônico, seguram uma manchete.
Mas ok, a pergunta da enquete _criticada por conter poucas opções e respostas muito fechadas_ era ainda mais existencial. Precisamos viver sob o domínio da manchete? E, além disso, qual a autoridade de quem manchetou?
Vinicius Bruno me lembrou que o “gatekeeping”, ou a escolha do que entra na edição, é meramente subjetivo. Quem é você para me dizer o que é mais importante? “Eu sou o editor, sou preparado e pago para isso, e se o leitor não gostou é porque ele é um idiota”, respondeu, certa vez, Paulo Francis.
Brilhante, mas talvez só Francis tivesse essa autoridade _acho que nem ele.
A semana de reflexão sobre o aconteceu ontem termina hoje. Foram dias de intenso debate e troca de informação. Em todas as frentes on-line.
Onde, aliás, esta conversação prossegue.
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Capa do Diário de São Paulo em 2 de junho de 2009
O ponto de partida destes posts que discutem o novo papel do jornal impresso foi coluna do ombudsman da Folha de S.Paulo, Carlos Eduardo Lins da Silva, relatando cartas de leitores que se queixavam de que o veículo não avançou informações conhecidas de antemão, e por outras mídias, no caso do acidente com o Air France AF447 no Atlântico.
Leia também: Aconteceu ontem: análise e opinião resolvem?
Aconteceu ontem: como avançar sem desinformar
Aconteceu ontem: alguns escritos sobre o estado do jornal impresso
Aconteceu ontem: nada mais desatualizado do que o jornal de hoje
Opine: um jornal precisa de manchete todos os dias?
O colega José Renato Salatiel, em seu Reunião de Pauta, fez um exercício de “jornalismo comparado” ao tratar do mesmo tema e das capas de jornais e revistas. Exibiu a capa reproduzida acima, do Diário de São Paulo, que sem dúvida foi a mais criativa do dia _apesar da cafona opção pela disposição da chamada em formato de fuselagem.
Essa escola de disposição visual, notabilizada pelo Jornal da Tarde na década de 80 (ficou célebre a foto da criança chorando, transformada em capa, após a derrota do Brasil para a Itália na Copa do Mundo de 1982), foi praticamente abandonada de lá para cá.
Nesse meio tempo, os jornais encaram um problema mais sério: sua gradual desimportância em comparação com outras mídias, notadamente a internet, que antecipam as informações antes exclusivas do jornalismo impresso _e aí a mídia em papel não sabe bem como reagir.
Como prometido, amanhã prosseguimos com a relação, bem próxima, entre on-line e impresso.
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