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O falso anúncio dos leitores no NYT
O engajamento da audiência (ou melhor, da ex-plateia) definitivamente mudou o fazer jornalístico. Não só mudou como, em alguns casos, o influenciou diretamente, criando ruídos contestatórios e evidenciando que seu poder não é mais o mesmo.
Só que muitas vezes essa audiência serve a interesses, inclusive de governos que, nas sombras, agem bancando seus devaneios.
A ONG “For the Next Generation” voltou a fazer barulho ontem, ao publicar no New York Times um anúncio que repara um mapa publicado pelo jornal _a questão é toda política e envolve o nome de um quase golfo entre as Coreias, China e Rússia, além do país que lhe dá o nome mais usado.
O NYT escreveu Mar do Japão, o ONG briga pelo uso de Mar do Leste. Daí a provocação.
Não foi uma novidade: em 2005, a entidade publicou anúncio semelhante no The Wall Street Journal. É seu modus operandi.
No caso mais recente, ela diz que foram 94.966 doadores que bancaram o anúncio, cujo valor não foi revelado (mas gira em torno de US$ 60 mil), quase todos coreanos.
Aqui se trata de massa de manobra, não de uma manifestação espontânea da ex-plateia. Apenas para que os registros de uma conduta induzida e politizada não sejam confundidos com a legítima participação do público no jornalismo formal.
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Dave Winer, um dos primeiros blogueiros, entrevistou (em áudio) o professor Jay Rosen, um dos caras que ajudaram a identificar essa gente (a ex-plateia), como Winer, que ajudou a enterrar o monopólio da imprensa naquela tarefinha de apurar/interpretar/difundir notícias.
Ouça.
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Alvo de protesto espontâneo dos leitores, site reage e, de quebra, ainda adiciona usuários
Não deixou de ser engraçado, numa semana em que falei bastante de Jay Rosen, Clay Shirky e do poder de mobilização da ex-plateia na Web, que um movimento de usuários de um site noticioso tenha conseguido resolver um problema irritante: as notícias incompletas que o site G1 entregava, frequentemente, em seu canal de microblog.
Como um protesto bem-humorado, o #completeog1, surgido no final de fevereiro, chegou a seu ápice na tarde de ontem _quando aliás o Webmanário teve a maior audiência de sua história justamente por ter divulgado o movimento.
O que era até então um protesto silencioso se transformou, com o repasse frenético de mensagens, numa corrente que obrigou o G1 a tomar providências. Sua página no Twitter, desgovernada pelo prosaico motivo da perda de uma senha, foi enfim adequada a um padrão mínimo de qualidade _o erro, diga-se de passagem, perdurou por mais de um ano.
Precisou, porém, ocorrer uma revolução para que o descalabro fosse resolvido. E foi rápido: passaram-se apenas algumas horas entre o hype do #completeog1 e a primeira mensagem notando que algo estava diferente: sim, o G1 começava a adicionar usuários, o que nunca antes ocorrera.
Depois, mais um sintoma: mudou a url curta que acompanha os miniposts e, melhor, os erros tinham sumido.
A revolução, proposta e executada pelos usuários, tinha chegado ao fim com o melhor resultado possível. Espera-se que agora, com pessoas e não robôs, o microblog do G1 dialogue e se aproxime mais do seu público.
Para quem não achava que as pessoas, mobilizadas e em rede, são mais fortes que qualquer corporação (a máxima de Shirky, por sinal), fica aí um exemplo maravilhoso.
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Uma escola ao lado da sua casa conturba o trânsito, cometendo ilegalidades como fechar a rua com cones ou permitir fila dupla. Você já procurou as autoridades municipais responsáveis pela fiscalização, mas nada foi feito. Qual a solução? Contratar jornalistas para apurar o fato e confrontar as autoridades, exigindo uma providência.
David Cohn, 26, acreditamente piamente nisso, a que deu o nome de jornalismo financiado pela comunidade (ou simplesmente “crowdfunding journalism”, na língua original). Cohn está torrando uma bolsa de US$ 340 mil no Spot Us, a sua resposta para a crise do jornalismo tradicional.
A idéia não deixa de beber um pouco no jornalismo representativo preconizado por Leonard Witt, e já abordado neste Webmanário. Tão pouco é inédita: ao lado de Jay Rosen, respeitável professor da Universidade de Nova York e um dos maiores pensadores do novo jornalismo, Cohn tocou, no ano passado, o Assigment Zero, projeto com o mesmo conceito que não decolou _a prova é seu site, ainda no ar, que apresenta um cenário de terra arrasada que evidencia a ausência de pessoas dispostas a bancar reportagens.
Desta vez, Cohn _bolsista da Knight Foundation_ conta com o “modelo Obama” para fazer sua idéia acontecer. Explico: ele se espelha nas milhares de pequenas contribuições que o candidato do Partido Democrata à sucessão de Bush amealhou no decorrer da campanha. “Eu não sou Bill Gates, mas posso doar US$ 10″, disse ele ao New York Times.
Algumas questões importantes se colocam de antemão: estaria o público disposto a pagar por jornalismo? Alguns estudiosos (e experiências anteriores) já sentenciaram que não. Fosse no Brasil, eu assinaria embaixo a petição dos pessimistas, mas o cenário norte-americano (que inclui uma crise bem mais severa dos meios tradicionais, em especial do jornal impresso) é único e, positivamente, se há um lugar onde esse projeto tem chance de vingar é lá.
Outro aspecto que me preocupa com relação aos planos do hiperativo Cohn: suas reportagens serão publicadas aonde? Inicialmente, apenas em seu próprio site. Um alcance, convenhamos, minúsculo se o que se pretende é mobilizar autoridades e conseguir mudanças efetivas no status quo do cotidiano.
Cohn diz que está buscando parcerias com outros veículos para dar maior dimensão ao material produzido por sua equipe de jornalistas. Mesmo que não consiga, e sendo otimista, é crível pensar que a exposição num único site na Web seja capaz de, dependendo da profundidade do tema, sensibilizar a quem de direito.
O problema mais grave do jornalismo financiado é a possibilidade de o poder econômico estabelecer uma agenda própria de investigação jornalística. Contra isso, Cohn diz que seu Spot Us limita a contribuição individual a 20% do custo de uma investigação, além de escolha rigorosa das pautas a serem seguidas. Nada que não possa ser burlado por uma coisa chamada dinheiro.
A idéia, porém, é interessante e merece ser acompanhada.
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Jay Rosen, professor da Universidade de Nova York que teorizou a ascensão da ex-audiência na prática de tarefas jornalísticas, apresentou hoje uma nova (e muito simples) definição de jornalismo cidadão: “é quando a ex-audiência usa ferramentas à disposição do jornalismo profissional para informar os outros”.
Perfeito.
Tem mais gente falando sobre jornalismo cidadão hoje na blogosfera…
É claro que a tropa dos descontentes seguirá imaginando mirabolâncias para desqualificar o inevitável: que a mídia perdeu parte de seu território, em parte por causa de sua própria incapacidade de mantê-lo.
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O jornalista segue com aquele problema congênito em aceitar que outras pessoas (no caso, o cidadão comum) façam o seu trabalho. Ainda mais quando a “plebe” recorre a artifícios que só nós, jornalistas espertos, podemos usá-los.
Se você não entendeu, escute: hoje qualquer um pode ser jornalista, perdemos o monopólio sobre a filtragem do noticiário, é uma situação irreversível e, portanto, acostume-se a ela.
O ombudsman da Folha, Carlos Eduardo Lins da Silva, toca diretamente no assunto ao lembrar o caso Mayhill Fowler, uma senhora de 61 anos que, travestida de funcionária de campanha, ouviu frases sensacionais de Barack Obama a correligionários e, depois, conversou reservadamente com o presidente Bill Clinton durante um ato público de sua mulher.
Em ambos, colheu depoimentos constrangedores e que tiveram repercussão entre os eleitores (Fowler escreve para o Off the Bus, do blog Huffington Post, um dos pioneiros na adoção de trabalho de não-jornalistas). O “Off the Bus“, por sinal, tem por trás o dedo do professor Jay Rosen, que teorizou a participação da “ex-audiência” no jornalismo atual.
Pois bem: assim como o Observatório da Imprensa, Lins da Silva entende que de alguma forma Fowler avançou o sinal ao não se identificar como jornalista diante de seus “entrevistados”.
“Ela fez um serviço público? Praticou bom jornalismo? Revelou à sociedade o que os políticos realmente pensam, mas não dizem em público? Ou foi antiética, desonesta, agiu sob a lógica de fins justificando meios? Faz sentido discutir ética jornalística nesse ambiente?”, fala ele, para logo concluir: “Se todos os valores humanos estão em xeque neste ambiente de múltiplas realidades, por que os do jornalismo sobreviveriam?” _o texto abre avaliando experiências jornalísticas virtuais no Second Life.
O que eu quero saber é o seguinte: e a febre da câmera escondida em programas como “Jornal Nacional” ou “Fantástico”? Neste caso tudo bem, não há conflito moral ou ético? Não se trata da mesma coisa?
Claro que sim. Mas o jornalista profissional pode tudo, inclusive omitir sua condição. Quando alguém faz exatamente igual, aí sim _só aí_ é um problema.
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Vi a imagem no blog da Ana Estela e gostei. A imprensa retratada como uma arma _ao mesmo tempo vigiada, por alguém que se supõe ser o público (a ex-audiência, talvez?)
O original é da Ongpi.
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Repito: a Wikipedia, quem diria, será impressa.
O projeto que popularizou a plataforma wiki ganhará, na Alemanha, uma versão em papel. Quem está por trás disso é a gigante Bertelsmann (dona, por exemplo, da gravadora Sony BMG).
Problema número um: os 740 mil artigos que hoje a Wikipedia alemã abriga caberiam não em uma, mas em centenas de versões em papel. “Não seria um projeto adequado levando-se em conta o mercado do livro na Alemanha”, reconheceu Beate Varnhorn, editora-chefe da Bertelsmann.
A opção foi por uma espécie de “livro do ano” com os 50 mil verbetes mais acessados on-line _mesmo assim, consumiu 992 páginas.
Problema número dois: isso significou a inclusão de termos como “Carla Bruni” e “Nintendo Wii“, entre outras irrelevâncias (por sorte, num limite de 10 linhas).
Todo mundo sabe que Jimmy Wales toca sua Wikipedia com base em crowdsourcing e doações, muito mais o primeiro. O acordo com a editora alemã lhe renderá US$ 1,59 por cópia vendida (a US$ 31,80 cada).
Problemas número três, quatro, cinco, seis…: ao ser congelada numa edição em papel, a Wikipedia deixa de ser wiki. Wiki é mais do que o produto de Wales, é um conceito de colaboração cuja plataforma permite a edição constante de textos, e por várias pessoas, e por todo o sempre.
Sim, existem termos congelados já na web, mas são casos específicos como os de George W. Bush (note o cadeado no canto superior direito), vítima preferencial de ativistas, vândalos ou desocupados _já incluíram em seu verbete na enciclopédia on-line até uma foto do Cramulhão.
Andrew Keen, o defensor-mor das grandes corporações (“da excelência das grandes corporações”, certamente me corrigiria ele), viu vantagens no acordo: entregaram um produto amador _em breve falarei sobre episódios de analfabetismo, censura e privilégios perpetrados pelos voluntários que administram as Wikipedia pelo mundo_ nas mãos de profissionais.
Sim, os verbetes escritos pela “ex-audiência“, por mais desimportantes que sejam, passarão pelo crivo de editores da Bertelsmann (vernáculo e veracidade das informações são checados e corrigidos).
Daí que a participação da “ex-audiência” será lembrada apenas como responsável por ter colocado Carla Bruni numa enciclopédia em papel.
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No dia 29 agora (neste sábado, portanto) completam-se 100 anos que dois jornalistas americanos, incentivados financeiramente pelo lendário Joseph Pulitzer, criaram a primeira escola de jornalismo do mundo, na Universidade de Missouri.
E até hoje a discussão persiste: e jornalismo lá se aprende na escola?
Para quem acha e defende que ”não” ou “em termos” (como eu _por mais paradoxal que isso possa soar), iniciativas atuais mostram que até quem não deveria está sendo instado a se sentar num banco escolar para aprender como se comporta (ou deveria se comportar) esse estranho ser chamado jornalista.
Travestidas de ação social libertária, tentam ensinar o modus operandi de repórteres e editores a cidadãos comuns interessados em práticas de jornalismo colaborativo.
Ou seja: até quem chegou (o “público antes conhecido como platéia“) para ajustar a madrasta agenda da mídia está sendo devidamente amestrado.
Mas afinal: jornalismo se aprende na escola?
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