Entries tagged as ‘jornalismo participativo’
Roy Greenslade, em seu blog no “Guardian”, aborda hoje um tema interessantíssimo _e que provoca torções de nariz na jornalistaiada profissional. “A verdadeira convergência é entre jornalistas e cidadãos (…). Não há nós e eles”.
Greenslade (ele próprio um jornalista veterano de redações) despeja uma série de conceitos que já conhecemos, como o fim do discurso de mão única e o acréscimo de novos personagens no jogo de construção do noticiário.
O interessante é que ele revela não estar mais tão certo sobre o futuro dessa convivência entre profissionais e amadores. “Antes”, diz Greensdale, “eu enxergava um grupo no centro, rodeado de blogueiros na periferia”.
É o debate do momento. Não são poucos os que acreditam que a mediação profissional no jornalismo seguirá, perene. Mas é fato que a disseminação dos publicadores on-line tirou das mãos destes “mediadores” seu poder monopolista sobre o noticiário.
A conclusão: convidados que fomos, por nosso próprio público, a dialogar, por que resistimos tanto em fazê-lo?
Vi no Tejiendo Redes.
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Uma das poucas barreiras que ainda separam o jornalista cidadão (portanto, amador) do profissional do mainstream é a legitimação, o direito de, por exemplo, ter acesso aos jogadores após uma partida de futebol ou ficar próximo ao governador num ato público.
Pois o MySpace (rede social on-line vice-líder em usuários no mundo) organiza um concurso cujo prêmio é uma credencial para cobrir as convenções dos partidos Democrata (entre 25 e 28 de agosto) e Republicano (de 1º a 4 de setembro) que oficializarão as candidaturas de John McCain e Barack Obama à presidência dos Estados Unidos.
Inscrições terminam em julho.
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O jornalista segue com aquele problema congênito em aceitar que outras pessoas (no caso, o cidadão comum) façam o seu trabalho. Ainda mais quando a “plebe” recorre a artifícios que só nós, jornalistas espertos, podemos usá-los.
Se você não entendeu, escute: hoje qualquer um pode ser jornalista, perdemos o monopólio sobre a filtragem do noticiário, é uma situação irreversível e, portanto, acostume-se a ela.
O ombudsman da Folha, Carlos Eduardo Lins da Silva, toca diretamente no assunto ao lembrar o caso Mayhill Fowler, uma senhora de 61 anos que, travestida de funcionária de campanha, ouviu frases sensacionais de Barack Obama a correligionários e, depois, conversou reservadamente com o presidente Bill Clinton durante um ato público de sua mulher.
Em ambos, colheu depoimentos constrangedores e que tiveram repercussão entre os eleitores (Fowler escreve para o Off the Bus, do blog Huffington Post, um dos pioneiros na adoção de trabalho de não-jornalistas). O “Off the Bus“, por sinal, tem por trás o dedo do professor Jay Rosen, que teorizou a participação da “ex-audiência” no jornalismo atual.
Pois bem: assim como o Observatório da Imprensa, Lins da Silva entende que de alguma forma Fowler avançou o sinal ao não se identificar como jornalista diante de seus “entrevistados”.
“Ela fez um serviço público? Praticou bom jornalismo? Revelou à sociedade o que os políticos realmente pensam, mas não dizem em público? Ou foi antiética, desonesta, agiu sob a lógica de fins justificando meios? Faz sentido discutir ética jornalística nesse ambiente?”, fala ele, para logo concluir: “Se todos os valores humanos estão em xeque neste ambiente de múltiplas realidades, por que os do jornalismo sobreviveriam?” _o texto abre avaliando experiências jornalísticas virtuais no Second Life.
O que eu quero saber é o seguinte: e a febre da câmera escondida em programas como “Jornal Nacional” ou “Fantástico”? Neste caso tudo bem, não há conflito moral ou ético? Não se trata da mesma coisa?
Claro que sim. Mas o jornalista profissional pode tudo, inclusive omitir sua condição. Quando alguém faz exatamente igual, aí sim _só aí_ é um problema.
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Não há democracia na China, isso é fato.
E é engraçado como os meios de comunicação conseguem provar isso de forma cabal.
Quando o executivo Wei Wenhua foi brutalmente espancado e morto após filmar um confronto entre policiais e pessoas que protestavam contra a legalização de um depósito de lixo, a imprensa local passou batida. Nas horas vagas, Wei era blogueiro e “jornalista cidadão”, mas sua atividade era considerada “nociva” ao país.
Pois bem: hoje o “Diário do Povo”, jornal oficial do país, conta a história do estudante Zhang Qi, que após o terremoto de 12 de maio postou na Web informações sobre uma área próxima a sua casa que poderia servir como heliponto para as equipes de resgate, já que as estradas que levavam à região de Wenchuan tinham sido todas destruídas _é aquela história de as redes sociais funcionarem na hora da desgraça.
O jornal diz que Zhang é o exemplo de como a Internet pode ser usada para a disseminação de informação e informa que o país, com seus 1,3 bilhão de habitantes, possui 221 milhões de usuários ativos na rede.
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Essa eu vi no Twitter, e parece ser um tentativa bem-intencionada de se fazer jornalismo cívico _que está acima do “jornalismo cidadão”, o rótulo com o qual definimos conteúdo com viés jornalístico produzido pelo usuário da Internet.
O projeto se chama Witness (testemunha, em português) e claramente é bem mais do que jornalismo, mas documentação e denúncia, primordialmente. Sem show.
Apesar de ser uma ONG em que Peter Gabriel está por trás como um dos fundadores. Eu sou de um tempo em que personalidades nunca são bem-vindas.
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Depois do Ohmynews, que criou uma escolinha para ensinar os cidadãos a serem jornalistas, agora é a vez da Society of Professional Journalists, que faz, no dia 7, um workshop com a mesma motivação.
Entre os temas que serão tratados no evento estão noções éticas da profissão, bases da legislação de imprensa, ferramentas e novas mídias, orientações para pesquisa e apuração e técnicas de reportagem.
Ok, iniciativa bacana e tal, mas sou contra. O jornalismo cidadão está aí justamente para que fujamos dos vícios e modus operandi da mídia tradicional. Quando nos propomos a amestrar o cidadão, creio, fujimos também da oxigenação que ele pode trazer para a profissão com a adoção de métodos que não fazem parte do dia-a-dia das redações.
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O Youtube _criado à imagem e semelhança do brasileiro Videolog, que apesar de vindo ao mundo nove meses antes não teve nem de perto o mesmo sucesso_ lançou um canal específico de jornalismo cidadão.
A idéia não é apenas incentivar os usuários a produzir os próprios vídeos noticiosos, mas também fazê-los avisar os administradores do canal se há bom material “perdido” em outros cantos do site de compartilhamento de vídeos.
O discurso de apresentação da coisa é bonito, fala em “entrevistas com líderes comunitários” e tal, mas aposto que imagens de “meu cachorro fazendo pipi no poste” serão as mais abundantes.
O cidadão, quando se trata de jornalismo, se atrapalha todo. Não sabe que um cachorro mordendo um homem não é notícia, mas o oposto sim.
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Um ângulo interessante sobre jornalismo cidadão surgiu depois que li uma entrevista de Hayden Hewitt, um dos fundadores do Liveleak.com _basicamente um repositório de vídeos amadores.
Primeiro que caiu minha ficha: na verdade, o cidadão está por trás de poucas iniciativas jornalísticas. A maior parte delas são registros de entretenimento.
“Alguns vêem como entretenimento, enquanto outros levam mais a sério”, disse Hewitt. Seu site bombou com as cenas de hooliganismo gravadas por amadores há 20 dias, após um jogo de hóquei no Canadá.
Aí fiquei pensando que, de certa forma, é um pouco a birra que jornalistas tradicionais têm quando olham portais de internet. Torcem o nariz, sendo que entretenimento e jornalismo brigam por espaço nas home pages. E o jornalismo, sempre é bom lembrar, é apenas um pedacinho do conteúdo dos portais.
Daí, quando o proprietário de um site que usa material produzido pelo usuário diz que há entretenimento e também quem leve a sério, paro pra pensar. “Uai, entretenimento não pode ser sério?”
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Roy Greenslade, colunista do Sydney Morning Herald _e há 44 anos fazendo jornais de papel_ teoriza sobre o óbvio: que os jornalistas terão de dividir o seu território. Ele mal fala dos cidadãos (ou do conteúdo produzido pelo usuário), mas das exigências cada vez mais multimidiáticas impostas à profissão.
Isso já está acontecendo no mundo todo (em menor escala, é verdade, no Brasil).
Mas que os processos tecnológicos que levaram à Web 2.0 (que o professor Francisco Madureira não nos ouça) tiraram das mãos dos jornalistas profissionais a exclusividade sobre a apuração e filtragem do noticiário, ah, tiraram.
Restou aos “profissionais da comunicação” apenas legitimação e proteção que estão por trás dos grupos do mainstream.
Legitimação porque, diferentemente do cidadão “comum”, um repórter oficialmente constituído (digamos assim) tem permissão para abordar o governador ou conversar com atletas no vestiário após um evento esportivo, apenas para dar dois exemplos pobres.
E, quando sofre processos de fontes que questionam informações publicadas, têm respaldo jurídico da empresa que representa, tornando-se um pouco mais forte.
É só isso que restou. No mais, profissional e amador são exatamente a mesma coisa e têm acesso às mesmas ferramentas.
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Repito: a Wikipedia, quem diria, será impressa.
O projeto que popularizou a plataforma wiki ganhará, na Alemanha, uma versão em papel. Quem está por trás disso é a gigante Bertelsmann (dona, por exemplo, da gravadora Sony BMG).
Problema número um: os 740 mil artigos que hoje a Wikipedia alemã abriga caberiam não em uma, mas em centenas de versões em papel. “Não seria um projeto adequado levando-se em conta o mercado do livro na Alemanha”, reconheceu Beate Varnhorn, editora-chefe da Bertelsmann.
A opção foi por uma espécie de “livro do ano” com os 50 mil verbetes mais acessados on-line _mesmo assim, consumiu 992 páginas.
Problema número dois: isso significou a inclusão de termos como “Carla Bruni” e “Nintendo Wii“, entre outras irrelevâncias (por sorte, num limite de 10 linhas).
Todo mundo sabe que Jimmy Wales toca sua Wikipedia com base em crowdsourcing e doações, muito mais o primeiro. O acordo com a editora alemã lhe renderá US$ 1,59 por cópia vendida (a US$ 31,80 cada).
Problemas número três, quatro, cinco, seis…: ao ser congelada numa edição em papel, a Wikipedia deixa de ser wiki. Wiki é mais do que o produto de Wales, é um conceito de colaboração cuja plataforma permite a edição constante de textos, e por várias pessoas, e por todo o sempre.
Sim, existem termos congelados já na web, mas são casos específicos como os de George W. Bush (note o cadeado no canto superior direito), vítima preferencial de ativistas, vândalos ou desocupados _já incluíram em seu verbete na enciclopédia on-line até uma foto do Cramulhão.
Andrew Keen, o defensor-mor das grandes corporações (”da excelência das grandes corporações”, certamente me corrigiria ele), viu vantagens no acordo: entregaram um produto amador _em breve falarei sobre episódios de analfabetismo, censura e privilégios perpetrados pelos voluntários que administram as Wikipedia pelo mundo_ nas mãos de profissionais.
Sim, os verbetes escritos pela “ex-audiência“, por mais desimportantes que sejam, passarão pelo crivo de editores da Bertelsmann (vernáculo e veracidade das informações são checados e corrigidos).
Daí que a participação da “ex-audiência” será lembrada apenas como responsável por ter colocado Carla Bruni numa enciclopédia em papel.
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