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Entries tagged as ‘ohmynews’

Jornalismo sem jornalistas (e notícias)

Junho 15, 2008 · 2 Comentários

O consultor Tiago Dória diz que o problema do jornalismo colaborativo (aquele em que o usuário faz suas próprias matérias) no Brasil é a adoção do modelo do Ohmynews, o site sul-coreano apresentado como a trincheira do cidadão sob o lema “cada cidadão é um repórter”.

“O contexto do OhmyNews é bem diferente. Na Coréia do Sul, a mídia é vista como conservadora e chapa branca. Existe uma demanda por veículos alternativos de comunicação e o OhmyNews é um deles. Por isso, as pessoas fazem questão de participar do projeto”, diz Dória ao site-projeto “Vc é a Mídia”.

Vejam, no Brasil a mídia é vista exatamente da mesma forma (conservadora e chapa branca) que na Coréia do Sul _aliás, trata-se de uma visão quase planetária. E isso não significou que o jornalismo participativo tenha superado a fase do “meu-cachorro-fez-xixi-no-poste” (a irrelevância do conteúdo enviado pelo usuário nacional ainda é de doer).

Mesmo com pesquisas do próprio “Vc é a Mídia” indicando na direção oposta, eu prefiro discutir sobre dados concretos os conceitos de notícia e relevância. Por ora, as experiências de colaboração no Brasil, especialmente em grandes portais, seguem pífias e desinteressantes.

Não por culpa, como sustentou Tiago Dória, da aplicação do modelo Ohmynews. Lá, inclusive em atitude que eu considero desvirtuadora da colaboração, o site está amestrando cidadãos para que eles se comportem como repórteres (coisa que tão cedo não vai rolar por aqui).

Além disso, há forte mediação profissional sobre o conteúdo apresentado. É assim também, por exemplo, nas experiências participativas de Terra e G1 _o “Vc é a Mídia” não conta, mas o material que você lê no ar foi profundamente editado e, na maioria das vezes, lembra vagamente a contribuição inicial, invariavelmente sem lide, pé ou cabeça.

É, essa história de jornalismo sem jornalistas ainda vai dar muito pano pra manga.

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Cidadãos amestrados

Maio 23, 2008 · 1 Comentário

Depois do Ohmynews, que criou uma escolinha para ensinar os cidadãos a serem jornalistas, agora é a vez da Society of Professional Journalists, que faz, no dia 7, um workshop com a mesma motivação.

Entre os temas que serão tratados no evento estão noções éticas da profissão, bases da legislação de imprensa, ferramentas e novas mídias, orientações para pesquisa e apuração e técnicas de reportagem.

Ok, iniciativa bacana e tal, mas sou contra. O jornalismo cidadão está aí justamente para que fujamos dos vícios e modus operandi da mídia tradicional. Quando nos propomos a amestrar o cidadão, creio, fujimos também da oxigenação que ele pode trazer para a profissão com a adoção de métodos que não fazem parte do dia-a-dia das redações.

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Cidadão emplaca primeira página em “O Globo”

Abril 25, 2008 · 3 Comentários

 

A ressaca que atingiu o litoral do Rio na quinta-feira por pouco não provocou o naufrágio de um catamarã que fazia a travessia Niterói-Rio (17 pessoas acabaram ficando feridas após a embarcação ter sido invadida por uma gigantesca onda).

A quase-tragédia, porém, serviu para alçar o cidadão comum Alexandre Caldas à primeira página do jornal “O Globo”. 

Ele estava dentro do barco, fotografou os momentos de tensão e enviou imagens para o Eu Repórter, o canal participativo do Globo Online.

Como sugeri, há um mês, que vocês fizessem.

Enquanto isso, vejo no site de jornalismo cidadão Ohmynews um texto sobre a vitória de Danica Patrick no GP do Japão da F-Indy. Publicada quatro dias após a prova e com aspas “chupadas” do site da ESPN International.

É assim que se oferece um caminho alternativo à mídia tradicional?

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Nós nunca seremos a mídia?

Abril 16, 2008 · 2 Comentários

Mais uma experiência de jornalismo cidadão está fazendo água. Agora é o canadense Nowpublic que, três anos e US$ 10 milhões investidos depois, se depara com uma encruzilhada: seus colaboradores são muitos passivos, e a maioria dos textos basicamente reproduzem matérias publicadas pelo mainstream.

É o que eu comentei outro dia sobre o Ohmynews, trincheira da colaboração na qual até relato de jogo de futebol com ficha técnica (algo nada original e que ainda por cima concorre com a grande mídia) é publicado.

Outro dia foi o Assigment Zero quem encerrou suas atividades, após anunciar uma revolução no jornalismo colaborativo. Depois, alguns de seus maiores entusiastas analisaram que a experiência “foi boa enquanto durou“.

Some-se a isso os fracassos consecutivos de Dan Gillmor, considerado o cara que melhor definiu a nova ordem na mídia mundial com seu livro “We the Media“, de 2004 _apesar de Chris Willis e Shayne Bowman (com prefácio de Gillmor!!!) terem detectado exatamente o mesmo movimento um ano antes na obra “We Media“.

Os projetos participativos sob o comando de Gillmor foram todos um fiasco, a ponto de gente colocar em dúvida essa coisa de “nós, a mídia“. Hoje, Gillmor bate ponto no Center for Citizen Media, que ainda não disse exatamente ao que veio.

Ainda acho que falta, aos projetos de jornalismo colaborativo, pautar os colaboradores, roteirizar o trabalho deles.

No jornalismo participativo isso é menos premente _manda quem quer e o que quer, e publica quem tem juízo.

Pior ainda é o ambiente sem moderação jornalística, ou coexistência pro-am. Nele, ainda impera um quê de vale-tudo, como evidenciam os sites que trabalham com a plataforma wiki e são gerenciados pelos próprios usuários.

O caminho para que nós sejamos, definitivamente, a mídia ainda é longo e mal foi percorrido…

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Jornalismo cidadão atira para todo lado

Abril 14, 2008 · 2 Comentários

A participação da “ex-audiência” no jornalismo (o principal assunto sobre a profissão agora e pelas próximas duas décadas) ainda é heterogênea e sem critérios.

Uma análise detalhada do site coreano Ohmynews, bastante citado como a experiência mais bem sucedida de jornalismo colaborativo, evidencia claramente que não há rumo. Às vezes, valoriza-se o diferencial para escancarar a alardeada ruptura com a grande imprensa (que doravante quero chamar de mainstream, posso?). Noutras, concorre-se pobremente com ela.

Projetos participativos em português, então, são ainda mais inanimados. O Wikinotícias, com média de oito textos (ou notas?) publicados por dia e administrado por cães de guarda de sua própria comunidade, ainda é inqualificável.

Estruturado de forma diferente (há a mediação profissional sobre o trabalho do amador), o Brasilwiki aparenta ter mais solidez. Porém sofre do mesmo mal do site asiático, sua confessa fonte de inspiração.

Ao anunciar, em sua fundação, que “cada cidadão é um repórter” e que sua plataforma era claramente uma oposição ao mainstream, o Ohmynews explicitou que manchetes como a desta madrugada são seu business.

No caso, um texto pessoal impressionista, com incômodo nariz de cera, mas um ótimo diferencial do noticiário da grande mídia: um cara contando que a cidade inglesa em que viveu, Dewsbury, tem o inacreditável poder de atrair tragédias. Foram vários os casos Isabella Nardoni no município. O mais recente (nem tão fresco assim, é do início de fevereiro…) é citado en passant pelo autor no oitavo parágrafo.

No dia em que as autoridades do Banco Mundial previram que a incontrolável alta dos preços dos alimentos vai provocar guerra e fome no mundo (NOTA: eram as manchetes de CNN e BBC por toda tarde/noite/madrugada deste domingo para segunda), não havia uma única notícia relacionada ao tema na trincheira do Ohmynews.

Tudo bem, se a missão da experiência é deixar de lado o hard news e incentivar sides ou análises.

Mas um passeio aleatório a outro setor do site, o canal de esportes, faz a incongruência saltar os olhos. É o caso do texto que conta as vitórias de Serena Williams e Nikolay Davidenko no Masters de Miami _ainda por cima publicado três dias após o fim do torneio.

Ou o relato da partida Colo Colo x Boca Juniors, com direito a descrição de lances e ficha técnica, tal qual centenas de outros produzidos pela grande mídia no mesmo dia.

Peralá: mas a colaboração é ou não é de hard news? É o que o usuário quiser, então? Cadê a mediação?

Aos experimentos pro-am de jornalismo colaborativo falta uma figura indispensável à tarefa profissional de coletar/filtrar/divulgar dados: a pauta, o roteiro de temas de interesse premente.

Um projeto que contemple a seleção de temas semanais/diários a serem abraçados pelos colaboradores, dentro de suas possibilidades, é factível. Quem não puder se comprometer a fazer, que não manifeste o desejo de desenvolver um texto. Agindo antes, os mediadores poderão obter resultados melhores.

De cara, isso é a solução para a vontade incontrolável de vestir um cachecol ao abrir sites como Ohmynews ou Brasilwiki, quase sempre dissociados do dia-a-dia em suas manchetes (mas, em suas listas de notícias, reféns dele).

E o papo ainda nem chegou à catastrófica colaboração oferecida pelos portais noticiosos.

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Há um século, decidiram ensinar jornalismo…

Março 26, 2008 · 4 Comentários

No dia 29 agora (neste sábado, portanto) completam-se 100 anos que dois jornalistas americanos, incentivados financeiramente pelo lendário Joseph Pulitzer, criaram a primeira escola de jornalismo do mundo, na Universidade de Missouri.

E até hoje a discussão persiste: e jornalismo lá se aprende na escola?

Para quem acha e defende que ”não” ou “em termos” (como eu _por mais paradoxal que isso possa soar), iniciativas atuais mostram que até quem não deveria está sendo instado a se sentar num banco escolar para aprender como se comporta (ou deveria se comportar) esse estranho ser chamado jornalista.

Travestidas de ação social libertária, tentam ensinar o modus operandi de repórteres e editores a cidadãos comuns interessados em práticas de jornalismo colaborativo.

Ou seja: até quem chegou (o “público antes conhecido como platéia“) para ajustar a madrasta agenda da mídia está sendo devidamente amestrado.

Mas afinal: jornalismo se aprende na escola?

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